Leiam só se não tiverem o que fazer

Apreciar a beleza do pôr do sol pra mim sempre foi uma realização, todas as tardes me debruçar sobre a varanda e embarcar naquele mar de nostalgias, perder-me naquele amontoado de cores que desciam atrás das montanhas, o céu estava límpido, belo e com bastante nuvens, parecia  mais um dia normal, exceto pelo aperto que tocou meu peito, aquela dor forte que insistia em não parar, se eu fosse por pra fora sangrava, se fosse guardar por dentro, matava. Sentei-me no banco mais próximo, respirei fundo como se assim toda aquela impureza e dor que sentia fosse embora, o relógio parou por alguns instantes e a intensa melodia tocando lá de longe palpitou meu coração que sussurrou: “algo está errado”, as lembranças me engoliram por inteiro e eu me entreguei, me deixei ser levado pelas mágoas passadas que me invadiram, deixei as lágrimas se libertarem, apenas chorei como uma criança que caiu do balanço, chorei como um recém nascido ao entrar nesse mundo perverso, chorei e pedi apenas um abraço, daqueles apertados que te fazem esquecer do mundo[…]Logo que todo aquele mar de sensações se acalmou, pus me a pensar no que havia acontecido, o pôr do sol agora me fazia mal? O que houve comigo? Depois de me banhar naquela fonte de dúvidas fui interrompido, o telefone tocou e aquele barulho reciproco me enjoava, senti que a morte fazia passagem, atendi sem interesse de saber quem era: “Quem está no céu agora ajudando o Senhor a cuidar do pôr do sol?”
Ouvi teu nome amada, ouvi talvez ate sua voz, com certeza não estava lucido, provavelmente estava te ouvindo porque era o que eu mais queria naquele momento, teu cheiro, teus cabelos, tua boca, queria entender o que não tem explicação, às vezes penso que Deus esqueceu um tanto de amor absurdo aqui na Terra e que eu por azar encontrei sem perceber, agora vivo nesse sufoco que me engasga e quase faz meu coração parar de bater.
Pensamentos, sons, sensações, dores, já não aguentava mais isso tudo, não queria mais isso fazendo parte de mim, nenhuma dessas palavras fazendo parte do meu vocabulário, parar de viver por apenas algumas horas, morrer por tempo determinado, me deitei no banco mais próximo e adormeci ali mesmo, olhando para as estrelas, olhando sua beleza e tentando entender o motivo da sua partida, tudo que me mantinha em pé foi-se num mero dia, virou espirito, virou lembranças, deixou-me vivendo sozinho, e eu aceitei seus motivos, continuei cultivando nosso amor e construindo nossos sonhos mesmo não te tendo mais comigo, espero ainda descansar, ser livre ai em cima contigo, e olhar aqui pra baixo lamentando os sofrimentos alheios, mas não tendo ideia do quanto dói uma partida.
A chuva gelada avisou que tua alma havia chegado ao Reino em paz, deixei que me molhasse e que lavasse toda a dor que havia por vir, impedir que mais tristeza chegasse e pedindo que Deus curasse todas as feridas que se formação com o tempo, mas que deixasse a saudade e a esperança, parar nascer dentro de mim à vontade de viver feliz outra vez. Ao botar os pés em casa novamente e observar-me no espelho, percebi que já não era mais o mesmo, parte de mim havia deixado de existir, a parte mais forte, a mais segura, a mais verdadeira, vi seus olhos refletindo no espelho e seus braços me envolvendo com ternura, senti uma grandeza profunda que só seus amores me provocam ao sorrir-me.
Com medo do mundo pedi a Deus proteção, busquei nele as melhores preces e os mais evocados pedidos, implorei para que me presenteasse com algo que me fizesse sentir seguro, pouco tempo depois senti meu bolse se encher, botei as mãos e encontrei um pequeno bilhete amassado: “Faça do algo mais próximo de ti, meu presente, e estarás seguro, apenas saiba usar”.
Logo ao lado de mim havia uma capa, a qual havia usado pouco antes pra me proteger da chuva, coloquei a novamente e naquele exato momento senti como se suas mãos me tocassem, como se pudesse sentir teu beijo de novo, como se meu amor houvesse se renovado, foi fácil sair em direção ao nada, caminhando contra o destino e aproveitando do tão belo presente que havia recebido, continuei usando a  capa que ao passar dos tempos foi  perdendo a serventia, na verdade nunca a usei pela chuva, e sim por você, por mim, pela minha imaginação fértil que sustentava a ilusão de ter seu amor pra mim eternamente.