NOSSO DEZEMBRO E A PRIMEIRA CARTA DE AMOR
A dor é tão absurda que chorar é um ato impossível. Por isso escrevo cartas de amor, assim posso chorar em silêncio. Não se assuste, Maria Lúcia, se ao abrir um envelope com meu nome não encontrar palavras, apenas manchas de lágrimas que no papel secaram. São as únicas palavras que consegui inventar para dizer o quanto eu amo você.
Eu poderia ter rabiscado no céu, ter usado as nuvens como caderno, ter escrito nosso amor em cordel, e de nada isso valeria se não tivesse teu amor em minha porta todo dia, toda hora, a cada palavra escrita, a cada carta selada… Pois vê-las assim, sendo levadas por estranhos passando de mão em mão, pegando um pouco do mundo para elas, deixando de ter apenas meu cheiro, para ter o aroma do universo, é violar demais o sentimento que guardo aqui comigo, que você optou por colocar em espera. E de tempos em tempos, quando volto a ser capaz de sussurrar poemas e cantar canções de dormir, volto a escrever as tais cartas que um dia fizeram você sorrir. Posso ser um jovem louco que do amor quase não conhece, mas meu coração já viveu outras vidas, só pode ser um coração de poeta. Não quero desprezar tudo que ele me diz quando meus olhos encontram os teus em meio a escuridão de uma noite solitária, ou entre as gotas de chuva que escorregam pela minha face nas madrugadas frias que passo olhando a janela do seu quarto, querendo ser seu Romeu, seu fidalgo, ou qualquer mendigo que possa apenas espiar a sua Julieta reencarnada dormindo. São por esses sinais divinos que choro, porque me rasga a alma amar você assim tão em silêncio, como se taças de cristais formassem a base do meu amor, e a cada bater do meu coração, mais perto do fim estaria.  Raiva, por fim, toma minha alma como dormitório, se faz presente nas horas compridas que passo longe do seu cheiro, mesmo quando fechos os olhos e penso em jogar-me nos abismos do destino que formam os caminhos taciturnos da minha existência. E por chorar apenas, embrulho-me inteiro e escrevo cartas, e mando-me por correio. Ser apenas aquele que ama, não me basta mais. Quero ser teu amado…
Para sempre… sem jamais.

Do seu, apenas seu João.